CIANO CÉU

CIANO CÉU

CIANO CÉU
 
Era uma vez um Menino Azul,
Não era Bordô nem Magenta,
Era Ciano e infeliz…
 
O Menino Azul queria
Ser de Escarlate cor,
Pois neste não cabe
 
Azul em fruto ou flor,
E resolveu curar o mundo
Do feliz Ciano céu!
 
Talvez se bebesse Amarelo
Sol, o Rubro entoasse o Cielo?
Mas não, Rosicler entardecido
 
Não é seu objetivo!
O Menino Azul quer ser Vermelho
E ponto final!
 
Era doença afinal?
Dizia o espelho,
E por certo o Menino encena:
 
— Sou Azul mas tomo Ocre para pernas.
E agora é lei! Índigo mais,
Nem Freud explica o recalque tom,
 
O Conselho das Cores
Deve agora Aquarelar-nos
Em aromas artificiais se preciso!
 
O Conselho revoltou-se em nós,
Em novelos reunidos
Contra o Menino Azul!
 
Mas a briga durou anos…
E a noite Negra bateu-lhe a porta,
Quando já desbotava a idade.
 
Na verdade era pura vaidade,
O menino gostava de Vermelho
Mesmo sendo Azul,
 
E tinto mentia em Coral…
Em tons quentes e veementes!
Embranqueceu tantas mentes;
 
E quase Alvo no céu Ciano,
Partindo com o vento sul,
Nunca fora Vermelho piano,
O infeliz Menino Azul…
 
(Anderson Delano Ribeiro)
ZÉ POBRE, ZÉ RICO

ZÉ POBRE, ZÉ RICO

ZÉ POBRE, ZÉ RICO
 
José perdeu-se em tantos desejos de Ter,
A TV mais cara, o carro do ano,
a cortina da sala, o nariz do Fasano,
 
Preenchida a casa, vazia a conta,
Num faz de conta que conta esse conto,
José esqueceu-se de Ser…
 
Trafegava de Porsche e pochete,
humilhava a pobre empreguete,
Não era José um qualquer…
 
Pobre José… Rico não é!
– Quanto custa esse troço de Ser?
José já queria saber…
 
Não se compra quão metro de pano,
O Ser íntegro, o Ser solícito,
O Ser Verdadeiro, O Ser Humano…
 
(Anderson Delano Ribeiro)
A ILHA QUE SOMOS

A ILHA QUE SOMOS

A ILHA QUE SOMOS
 
Psicologia não é magia,
é um farol na imensidão
num oceano de sensações,
que te leva as margens
de um novo horizonte…
A ilha que somos.
 
(Anderson Delano Ribeiro)
SONETO DAS POLARIDADES

SONETO DAS POLARIDADES

SONETO DAS POLARIDADES
 
Destrato
Trato
Desmato
Mato
 
Desfaço
Laço
Descalço
Alço
 
Desloco
Louco
Por pouco
 
Desmereço
Eu Mereço
Desfaleço
 
(Anderson Delano Ribeiro)
JUS SANGUINIS

JUS SANGUINIS

JUS SANGUINIS
 
– Serias tu, vivaz suficiente
Para viver eternamente?…
 
Vivo os dissabores da vida,
Nas tênues noites frias;
Lôbrego, na ânsia de um sonho,
No firmar da lua, pobre Eva cativa.
 
Ah, lúgubre noite bela!
Faz-me pensar em tudo que vivi de perverso,
Na amada que levou consigo minh’alma,
Num pedido negado, morte! Em Police Verso.
 
Verso, versos que tem me atormentado…
“– Ah meu amado, por que estás tão calado?
…breve hei de partir… Oh por favor, mate-me!
Mate-me para que eu possa viver em ti!…”
 
Ah, se minhas lágrimas virassem chuva…
Não haveria mais sol!
E o mundo seria um oceano negro.
Vejam, meu sangue não é nenhum néctar de uvas.
 
Meu sangue é chama!
Fogo que inflama,
Lungentes raízes em meu peito,
Possuindo, todo o meu leito.
 
E a cólera pira em meus olhos;
Eu nunca fui nem serei amado…
Bem o profeta já havia ditado:
“– O poeta, anjo da dor, respira a chama do amor…
 
Ele ama a Vida assim como a Morte,
Ama o belo, o alegre e o triste;
E tanto amor nele existe,
Tanto para os fracos como para os fortes;
 
Que pobre, nada lhe é devotado,
Nem a esperança de ser lembrado…”
O poeta é brisa fina da manhã,
Agonizante orvalho da manhã.
 
Mas o que é poesia?
Será que há poesia?
Ou apenas fantasia;
Utópica junção de palavras.
 
O que existe lá fora?
O que te rodeia agora?
Será que existe um algo a mais no mundo?
Seria um devaneio? Ou um olhar profundo?
 
Minhas perguntas teriam respostas?
Só se vê o que desejamos ver;
O que queremos crer.
A poesia só existe para quem a deseja.
 
Eu, desejo a liberdade!
O direito de amar na vida,
E não me afogar no lodo das vaidades…
Cantar, gritar, e um dia descansar.
 
De mim foi roubado este direito!
Eu sou o príncipe da noite de lua,
O pierrot que chora sobre o amor perfeito,
E agoniza um sorriso sobre a pele crua.
 
Viver é mais que existir!
Eu apenas existo…
Insignificante persisto,
Como uma velha árvore sem fruto.
 
Infinitamente de luto…
Proliferando nas sementes vazias,
A vagar nos zéfiros sem rumo,
Caçando o santo humus…
 
Preso às correntes dos ventos,
No ciclo eterno dos tempos;
Morrendo, vivendo e renascendo,
Num frio jogo que só eu sei…
 
Meu sangue alimenta os anjos,
Meu corpo é o santuário da dor;
Eu só queria vislumbrar por uma vez a cor,
Dos seios da liberdade! E tocar,
 
A face da insana felicidade.
 
(Anderson Delano Ribeiro)
O PALHAÇO

O PALHAÇO

O PALHAÇO
 
Palha no cabelo, nariz vermelho e aço no coração!
Maquia o riso em um pranto distorção, Imagina então!
Tantos mundos profundos riscados na face desse cidadão.
 
(Anderson Delano Ribeiro)
RI DE TI PIERROT

RI DE TI PIERROT

RI DE TI PIERROT
 
I
 
Ri de ti pierrot contrito, o atrito que permeia tua face
com silêncio da rosa é totalmente merecido,
ri de ti pelas sépalas segregadas…
 
II
 
Ri de ti pela mácula de Macário,
em penumbra de uma poética mascarada de alegria,
sorria! Ante teu sepulcro de amores vãos…
 
III
 
Vão-se dias e a noite é tua essência meu amigo,
tua tez pálida, traz cálida lágrima negra,
Rubro néctar da vida… Ri de ti pierrot…
 
IV
 
Posto que a lua é a luz do picadeiro,
e à aurora o circo dos risos recomeçará.
 
(Anderson Delano Ribeiro)
CAMINHO DOS OLHOS

CAMINHO DOS OLHOS

CAMINHO DOS OLHOS
 
 
Tenho aprendido a ouvir com os olhos,
Não, não são ossos do ofício da Psique!
Nem uma poética louca, mas… entenda que:
 
Eu tenho aprendido a ler teus olhos!
Sim, posto que as vezes teus olhos
Gritam, cantam, sussurram até dançam,
 
Enquanto a boca rende-se,
na loucura de ser normal…
 
Teus olhos tem um aroma de universo,
Guardam noites, estrelas, tormentas e submerso
percebo uma aurora em quietude… Ou inquietante?
 
(Anderson Delano Ribeiro)
SE ELA UM DIA DESPENCAR DOS CÉUS

SE ELA UM DIA DESPENCAR DOS CÉUS

SE ELA UM DIA DESPENCAR DOS CÉUS

 

Se ela um dia despencar dos céus,
que caia serenamente,
e que sua pele alva possa vestir
meus versos emplumados,

para fazê-la voar mais alto!
Que caiam em meus lábios,
gotas doces de uma poética
misteriosa do seu silêncio,

de um riso de eternidade…

Se ela um dia despencar dos céus,
peço que venha lasciva no olhar…
que traga no tépido riso de menina,
A virtude das mulheres deusas

Em seus olhos grandes, de pássaro
faminto… Que paire em meus dedos,
a colher sépalas róseas flamejantes
de espáduas retorcidas, contorcidas,

E de instante! Em face languida,
me perca, em toda paz e caos contidos;
Ébrio, em uma pira de devaneios…
Despertar… Despencar…

Da boca ao céu! Acordar…

 

(Anderson Delano Ribeiro)

 

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